04 junho 2026

A pedagogia da queda: Quando o ódio já não se sustenta em pé! Escrito por: Ifakóládé Agboola


Ifakóládé Agboola — ex-colunista de O Tempo, Jornal das Geraes e Jornal Clarim. Poeta e escritor, desenvolve uma trajetória múltipla, que também atravessa a moda, as artes visuais, a música e o sacerdócio. 

25 de mar. de 2026

Há momentos na história em que certos projetos políticos não caem por um golpe súbito, uma derrota espetacular nas urnas, nem por um acontecimento único que os derrube de imediato. Eles se dissolvem por exaustão. Deixam de convencer, perdem coerência interna e passam a existir apenas pela repetição mecânica de palavras de ordem. O que se observa hoje no Brasil não é apenas um desgaste eleitoral da extrema direita e da direita radical, mas algo mais profundo: a decomposição simbólica de uma narrativa construída sobre medo, ressentimento e simplificação da realidade, que agora se vê diante das próprias contradições.


Não se trata de um colapso abrupto, mas de uma implosão lenta, quase pedagógica. Como uma construção corroída por dentro, que ainda preserva a aparência externa enquanto sua estrutura interna já não sustenta o peso da própria retórica. A estética permanece — as bandeiras, os slogans, os gestos performáticos — mas o sentido começa a escapar. O discurso continua sendo repetido, porém cada vez mais como eco de si mesmo. Quando uma ideologia precisa gritar continuamente para manter sua presença, é sinal de que perdeu a capacidade de gerar pertencimento verdadeiro.

A extrema direita brasileira organizou-se, desde sua ascensão recente, como um projeto fundado na negação. Não nasceu da elaboração de um horizonte consistente de futuro ou um projeto de nação, mas da promessa de combater inimigos difusos. Em vez de apresentar uma arquitetura concreta de país, ofereceu um catálogo de antagonismos: contra a diversidade, o pensamento crítico, os movimentos sociais, a universidade e a qualquer forma de dissenso que desafiasse a narrativa de ordem moral que pretendia monopolizar.

Essa lógica produziu uma identidade política baseada menos na construção de um projeto coletivo e mais na manutenção de um campo emocional permanente. A adesão não era medida pela capacidade de pensar o país, mas pela intensidade da fidelidade demonstrada. Quanto maior a conexão com o discurso dominante, maior a legitimidade dentro do grupo. A dúvida tornou-se suspeita. Nuance passou a ser vista como fraqueza e a reflexão, em muitos casos, transformou-se em sinal de desvio.

Nesse ambiente, a política deixou gradualmente de ser espaço de debate para assumir características quase litúrgicas. O líder converteu-se em referência moral absoluta, enquanto os seguidores foram incentivados a reproduzir, sem mediação, as posições definidas pelo núcleo simbólico do movimento. O resultado foi a formação de uma comunidade política estruturada menos por ideias e mais por lealdades.

A exigência de fidelidade absoluta é um dos sintomas mais evidentes de movimentos autoritários. Onde há pensamento único, a política se aproxima do catecismo. O seguidor ideal não é aquele que compreende profundamente os temas em debate, mas aquele que repete com maior convicção. A complexidade da realidade precisa ser reduzida para que a narrativa permaneça intacta. Pensar, nesse contexto, torna-se perigoso — pois introduz fissura, cria dúvida e impede a entrega total. E nenhuma estrutura baseada em devoção ideológica tolera fissuras prolongadas. Por isso, os chamados “seguidores minimamente críticos” passaram a ser vistos com crescente desconfiança. Eles representam a lembrança incômoda de que ainda existe consciência individual dentro de um ambiente que prefere a uniformidade.

Outra dimensão dessa dinâmica aparece no uso estratégico de grupos historicamente marginalizados. Ao longo de ciclos eleitorais recentes, setores da direita radical passaram a incorporar, em sua comunicação pública, figuras provenientes de comunidades que durante décadas foram ignoradas ou tratadas como problema social: mulheres periféricas, pessoas negras, indivíduos vindos de contextos de exclusão econômica, de racismo religioso e até integrantes de grupos LGBTQIAPN+ que se alinharam ao discurso conservador.

Esse movimento foi frequentemente apresentado como prova de pluralidade. Na prática, porém, trata-se de uma inclusão cuidadosamente controlada. A presença desses sujeitos funciona como símbolo, não como transformação estrutural. É uma forma de afirmar que o movimento não é excludente, ao mesmo tempo em que suas posições políticas continuam a reproduzir padrões históricos de desigualdade e marginalização.

A lógica implícita é simples: determinadas identidades podem ser aceitas desde que não tensionem as bases ideológicas do grupo. Contanto que não questionem o racismo estrutural, o patriarcado, a desigualdade econômica ou a violência social. E que existam como exceção que confirma a regra.

Essa estratégia produz um efeito psicológico complexo. Primeiro cria sensação de pertencimento; depois transforma essa percepção em dívida simbólica. O indivíduo passa a acreditar que deve gratidão permanente ao campo político que lhe abriu espaço, mesmo que esse espaço continue limitado e condicionado à obediência. Com o tempo, contudo, essa relação tende a revelar suas incoerências. Quando esses sujeitos tentam exercer autonomia ou expressar posições próprias, percebem que o reconhecimento era mais frágil do que parecia. A estrutura aceita a presença, mas resiste à emancipação.

A dinâmica se repete também no campo das relações de gênero dentro da própria direita radical. O discurso em defesa da “família tradicional” costuma apresentar as mulheres como guardiãs morais da sociedade, associando-as a valores de pureza, fé e sacrifício. Porém, quando mulheres vinculadas a esse universo passam a ocupar espaços efetivos de poder ou a expressar posicionamentos autônomos, surgem tensões evidentes.

Nos últimos anos, esse fenômeno se tornou particularmente visível no caso de Michelle Bolsonaro. Inicialmente projetada como figura simbólica associada ao imaginário religioso e familiar do bolsonarismo, ela passou gradualmente a adquirir presença política própria, articulando discursos e participando de estratégias eleitorais de forma mais ativa. Esse deslocamento gerou desconforto em determinados setores do campo conservador. Não apenas por divergências pontuais, mas porque a possibilidade de uma mulher ocupar posição central dentro de um movimento fortemente marcado por lideranças masculinas altera o equilíbrio interno de poder. A extrema direita tende a aceitar mulheres enquanto elas funcionam como extensão da imagem masculina; quando passam a ser percebidas como polos autônomos de influência, surgem reações de contenção.

O debate em torno de Michelle Bolsonaro ilustra, portanto, uma tensão mais ampla. Não se trata apenas de disputa partidária, mas de uma reorganização simbólica dentro do próprio movimento. A pergunta tácita é quem pode ocupar o centro na política e em quais condições.

Algo semelhante ocorreu com outras figuras do campo conservador que, em determinado momento, emitiram opiniões ligeiramente diferentes do tom dominante. Pequenas variações de discurso foram suficientes para provocar ondas de hostilidade. Isso revela um traço estrutural: o extremismo tem dificuldade de conviver com variações. A lógica binária — amigo ou inimigo, fiel ou traidor — é fundamental para a manutenção da identidade do grupo. Qualquer tentativa de introduzir complexidade pode ser percebida como ameaça à coesão interna.

À medida que esses atritos se acumulam, a estrutura começa a mostrar sinais de desgaste. Movimentos políticos baseados principalmente na mobilização emocional costumam enfrentar dificuldades quando precisam transformar energia simbólica em projeto duradouro de governo. A oratória vazia do confronto permanente mobiliza, mas não constrói instituições estáveis. Essa lógica produz ainda uma consequência menos visível, mas decisiva para o futuro desse campo: o desperdício sistemático de tempo histórico.

Há um fator muitas vezes negligenciado nesse processo de desgaste: o tempo político perdido. Grupos estruturados a partir do ódio precisam investir energia permanente na destruição metafórica de adversários, na fabricação contínua de conflitos e na vigilância ideológica de seus próprios seguidores. Essa dinâmica consome recursos que poderiam ser destinados à formação de quadros, ao amadurecimento institucional e à construção de lideranças sólidas. O resultado é que, após anos de mobilização intensa, o campo da extrema direita revela dificuldade em apresentar nomes capazes de sustentar competitividade eleitoral consistente no longo prazo. Ao arrastar parte da direita tradicional para essa lógica de embate permanente, acabou também contaminando esse setor com a mesma fragilidade estratégica: muito esforço dedicado à destruição do outro e pouca energia investida na construção de alternativas políticas duradouras.

O cenário brasileiro recente revela esse processo de forma bastante clara. O discurso que antes se apresentava como ruptura revolucionária passou a enfrentar o desafio de lidar com a realidade concreta da política: negociações, divergências internas, disputas de liderança, necessidade de formulação programática. Essas exigências expõem a fragilidade de movimentos que cresceram mais pela rejeição ao outro do que pela elaboração de um caminho próprio.

A implosão que hoje se observa, portanto, não deve ser entendida como resultado da ação de adversários políticos. Ela decorre das limitações internas do próprio projeto. Ideologias que reduzem a complexidade do mundo acabam, com o tempo, tornando-se incapazes de responder a novos desafios.

Esse processo não significa necessariamente o desaparecimento imediato dessas correntes. Ideias baseadas em ressentimento social podem persistir por longos períodos. O que muda é a forma como elas são percebidas. A aura de inevitabilidade começa a se dissipar. A pedagogia da queda reside exatamente nesse aprendizado coletivo. Quando um movimento que prometia ordem absoluta revela suas próprias discrepâncias, abre-se espaço para um raciocínio mais amplo sobre os caminhos da sociedade.

Isso não implica celebração simplista da derrota de um adversário político. Demanda reconhecer que a democracia exige permanente vigilância contra qualquer forma de pensamento que tente substituir o debate pela devoção cega. O que está em jogo não é apenas o destino de uma corrente ideológica, mas a capacidade da sociedade de preservar a pluralidade. Projetos baseados na desumanização sistemática do outro podem mobilizar energias intensas por certo tempo, mas dificilmente constroem bases duradouras para a convivência democrática. A história oferece inúmeros exemplos de movimentos que cresceram alimentando rivalidades e terminaram consumidos por suas próprias incongruências. Quando o ódio se torna linguagem central da política, ele inevitavelmente começa a deteriorar também aqueles que o utilizam.

Talvez seja essa a principal lição deste momento. Não estamos diante apenas da divisão e enfraquecimento de um grupo específico, mas de uma disputa mais profunda sobre o tipo de sociedade que desejamos construir. Uma sociedade baseada na exclusão permanente tende a produzir ciclos contínuos de conflito. A alternativa é mais complexa e menos espetacular: fortalecer instituições, ampliar direitos, aceitar que a democracia envolve desacordos constantes e que nenhuma visão de mundo pode reivindicar monopólio sobre a verdade.

A pedagogia da queda ensina, portanto, algo essencial. Confrarias que tentam transformar ressentimento em projeto de poder podem ascender rapidamente, mas carregam dentro de si as condições de seu próprio desgaste. Quando o discurso da pureza moral encontra a realidade plural de uma sociedade diversa, surgem fraturas inevitáveis. O que resta depois desse processo é a possibilidade de reconstrução. Não uma reestruturação baseada em novos mitos salvadores, mas em compromisso renovado com a complexidade humana. A política, afinal, não é terreno para devoções absolutas, e sim espaço de convivência entre diferenças.

Se a extrema direita brasileira enfrenta hoje um momento de inflexão, isso não deve ser interpretado apenas como episódio conjuntural. Pode ser também oportunidade histórica de reafirmar princípios democráticos que, apesar de frequentemente atacados, continuam sendo a base mais sólida para qualquer projeto de futuro. Quando o ódio já não se sustenta em pé, abre-se a chance de que outras linguagens ocupem o espaço público. Linguagens menos estridentes, talvez, porém mais capazes de sustentar a vida coletiva.

Essa talvez seja, em última instância, a verdadeira pedagogia da queda. Não a celebração da ruína de um adversário, mas o aprendizado de que nenhuma sociedade floresce quando transforma a desumanização em método político. Porque o ódio acredita que constrói poder. Mas, na verdade, está apenas ensaiando a própria queda.


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